"VAMOS ABRIR A PORTA PARA IR BRINCAR?
Pois o jogo pode resgatar o mais humano em nós "

Adriana Friedmann

Dia a dia, pode-se constatar no cotidiano da nossa sociedade ocidental, uma necessidade cada vez maior de ampliar o campo de atuação dos educadores, psicólogos, professores das várias áreas, líderes, multiplicadores, en fim, de todos aqueles que trabalham com pessoas. Tanto as teorias acadêmicas, que não sãem do papel, quanto as técnicas isoladas, sem nenhum embasamento que as sustente, não mais satisfazem aqueles que trabalham com crianças e adultos.

Foi sob essa perspectiva e depois de alguns anos de pesquisas, que tenho me preocupado com o resgate da atividade lúdica na vida dos indivíduos. Acredito que para resgatar essa riqueza lúdica na vida do outro, devemos antes de mais nada, resgatar dentro de nós mesmos as diversas características da nossa humanidade. Somos formados e educados dentro da nossa cultura ocidental para nos "adequarmo-nos" a grupos, situações, regras. A escola nos ensina a pensar, desenvolve nosso raciocínio e coloca-nos no mercado de trabalho para sermos "competentes". Assim, aos poucos, vão ficando esquecidas "peças" do nosso quebra-cabeça humano: nossos sentidos e percepções vão se "congelando"; nossas articulações e músculos vão se "atrofiando"; nossa criatividade fica "abafada no fundo do baú"; temos a cada dia mais e mais dificuldades para estabelecer-mos vínculos amorosos com quem está a nossa volta; nosso coração bate forte, grita para lhe darmos mais atenção; e o que dizer então do nosso lado espiritual, esquecido dentro de algum conto de fadas que ouvimos pela última vez quando tínhamos uns dez, onze anos?!

O que significa então ser "competente"? Obter um título universitário? ; ter uma boa colocação no mercado de trabalho?; ter um bom salário para ficarmos tontos na roda gigante do consumo? E a nossa vida?, e a nossa humanidade? , onde ficam nesse turbilhão?

Como resgatar então toda essa humanidade dentro de nós, como voltar a achar todas as peças desse quebra-cabeça que somos nós, para tornar as nossas vidas mais significativas, neste labirinto tecnológico?

Na minha "trilha" vou encontrando algumas peças desse quebra-cabeças e descobrindo que através de propostas lúdicas e dinâmicas grupais, é possível o indivíduo se perceber e "acordar" suas partes adormecidas.

As vivências lúdicas, respaldadas por uma reflexão posterior a partir das mesmas, mostraram-se como um caminho desafiador e muito rico para o desenvolvimento das nossas potencialidades.

A partir de experiências práticas, podemos reviver situações que nos levem a resgatar nossa verdadeiras "possibilidades" individuais; que nos levem a recriar, a sentir novamente, a perceber, a ouvir todas as outras vozes que ficaram caladas dentro de nós. Assim, podemos refletir à respeito das nossas necessidades e potencialidades e, conseqüentemente, à respeito das necessidades e potencialidades latentes nas crianças e adultos com quem trabalhamos.

A atividade lúdica, mostra-se pois, um riquíssimo instrumento de trabalho para o desenvolvimento de seres humanos íntegros, que pensam, sentem, criam, trocam experiências, falam com seus corpos e fazem parte de um todo, em comunhão com a natureza e com o cosmos.

Se quisermos trabalhar com o jogo, devemos estar preparados para tal: brincar é coisa séria e para podermos trabalhar com pessoas devemos estar treinados como pessoas para poder conter as pessoas." Só é possível transmitir aquilo que se contém", diz Inés Moreno.

O jogo é vida e para podermos facilitar o jogo dos outros devemos abrir um espaço dentro de nós para vivenciar, pensar, sentir, criar e crescer como indivíduos e como profissionais.

O facilitador do jogo é um porta-voz da mudança e um defensor de uma vida mais saudável e mais humana.

Vamos então abrir a porta para ir brincar? ...